Saturday, 17 May 2008

[Dublin, 2008]

"E de súbito desaba o silêncio. É um silêncio sem ti, sem álamos, sem luas. Só nas minhas mãos ouço a música das tuas." [Eugénio de Andrade]

Tuesday, 13 May 2008

para o Ricardo e todos os seres humanos

Depois de algum tempo tu aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E tu aprendes que amar não significa apoiares-te, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos, e presentes não são promessas. E começas a aceitar as tuas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante,com a graça de um adulto, e não com a tristeza de uma criança. E aprendes a construir todas as tuas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos. E o futuro tem o costume de cair no meio do vão. Depois de um tempo tu aprendes que o sol queima se ficares exposto por muito tempo. E aprendes que não importa o quanto tu te importes, algumas pessoas simplesmente não se importam. E aceitas que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai ferir-te de vez em quando e tu precisas perdoá-la por isso. Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais. Descobres que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que tu podes fazer coisas num instante, das quais te arrependerás para o resto da vida. Aprendes que as verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que tu tens na vida, mas quem tu tens na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprendes que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebes que o teu melhor amigo e tu podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobres que as pessoas com quem tu mais te importas na vida são-te tomadas muito depressa. Por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vemos. Aprendes que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começas a aprender que não te deves comparar com os outros, mas com o melhor que podes ser. Descobres que levas muito tempo para te tornares na pessoa que queres ser, e que o tempo é curto. Aprendes que não importa aonde já chegaste, mas para onde estás a ir. Mas se tu não sabes para onde estás a ir, qualquer lugar serve. Aprendes que, ou tu controlas as tuas acções ou elas te controlarão. E que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja um situação, existem sempre dois lados. Aprendes que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências. Aprendes que a paciência requer muita prática. Descobres que algumas vezes a pessoa que tu esperas que te chute quando tu cais é uma das poucas que te ajuda a levantar. Aprendes que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tiveste e o que tu aprendeste com elas, do que com quantos aniversários já celebraste. Aprendes que há mais dos teus pais em ti do que tu supunhas. Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que os sonhos são uma parvoíce, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de seres cruel. Descobres que só porque alguém não te ama da forma que tu queres que te ame, não significa que esse alguém não te ame com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso. Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes tu tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo. Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, tu serás em algum momento condenado. Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que tu o consertes. Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás, portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga flores. E tu aprendes que realmente podes suportar, que realmente és forte, e que podes ir muito mais longe mesmo depois de pensares que não podes mais. E que realmente a vida tem valor, e que tu tens valor diante da vida! As nossas dádivas são traidoras e fazem-nos perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de o tentar.

William Shakespeare

Monday, 12 May 2008


Eu, o Zé, e a Joana ... e a tate moderna ... pelo olho e arte da jojo.
E, esta, heim!?

O meu corpo tem sido um espelho reflectido do sol: raios de sol. Gosto disso. Espalhar os meus átomos pela relva dos parques, raspar o pés nas flores [poor things] e cegar-me de tanto sol no meu campo de visão. Tem sido assim: o fary e os meus flatmates acompanham-me nesta Primavera, a par da Saramago, do João e da Ana, da Andréia, enfim, dos meus amigos de London Calling e mais os amigos dos amigos =) ... A semana passada, eu, o fary e os flatmates fomos para a casa do professor do Mike, em Elephant and Castle para "tomar conta" dos filhos-adolescentes, enquanto os pais relaxavam a sul de Londres. Acho que foram mais os miúdos a tomar conta de nós! Eu e o fary chegámos em primeiro lugar [já tínhamos espreitado uma exposição no British Museum] ao mini-palácio do Mike's teacher: a casa é enorme, ex-propriedade de um padre local, sediada junto a uma igreja. Como ninguém estava na casa, decidimos passear pelo parque, tirar fotografias, e esbarramos com um café (imagine-se!) na cave da própria igreja. Entramos:

(recepcionista): Are you here for the Doga Dance?
(nós): no, just to have a look!

Bem, cuscámos pelo vidro de uma porta (isto na cave da igreja, meus amigos!) e havia malta a bailar o corpo ao som de um música toda mística - era a tal Doga Dance (whatever that is). Os nossos olhos denunciaram a nossa curiosidade: um homem alto e loiro abriu a porta e perguntou se gostaríamos de participar. E eu e o zé: Yeah, why not. Enfim, quando dei por mim estava a dançar em agradecimento à Mother Nature. E seguimos um ritual de abraçar as plantinhas com uma fita: tudo pela Natureza=)

Caso para sublinhar: This is London e o inesperado acontece a cada esquina!!

Durante a semana que se seguiu ainda houve espaço para uma exposição ["Blood on Paper"] patente no VA Museum, com a sorridente e optimista companhia da Andréia; seguida da fantástica companhia da Sónia que me apresentou ao Neil's Yard em Convent Garden (many thanks!).

Este fim-de-semana eu, a joana e o zé trabalhámos no nosso projecto (top secret, como diz a própria joaninha). E depois deste project foi a vez de queimar os fins do dia em pubs - mesmo insight culture; não esquecendo a noitada em old street =)

E, agora, meus amigos, é a vez de Dublin, onde vou encontrar um amigo que não vejo há...14 anos:-o...ou seja, éramos criancinhas quando nos conhecemos, e trocamos cartas e nunca mais nos vimos...imaginem agora a música do ponto de encontro=) [e nada de filmes, o rapaz está praticamente casado!]

e, assim, acontece!

Friday, 9 May 2008

crónica lunar nº0

é na descendência do relógio que surges fera e fogo. que encarnas o verbo esfaquear e me entras pelo peito dentro e profundo. parece veneno de cobra. íman. apoderas-te deste corpo, sem pedir licença. és mal-educada. dás cabo do conteúdo deste corpo que sobrevive ao teu respirar. de tanto te gostar, chego a odiar-te. por isso, olha, quando te decidires arrumar-me em alguma prateleira do sótão, atira-me sem piedade. para que ali entre a poeira dos anos gastos e do amor defeito possa descansar e recolher-me no cheiro passado de duas vidas queimadas.

Are you from Portuguese?
No, I am from Portugal.

Are you Portugal?
No, I am Portuguese.

[mas esta gente anda toda com os copos]

Tenho saudades tuas e olho para a lua para saber como estás e penso se ainda te recordarás de mim do mesmo modo; se ainda serei a cabeça pousada nos teus joelhos, quieta, calma, pela qual não te parecia possível passar qualquer maldade. eu avisei-te: sou um louco. alguém em quem não se pode confiar, do qual se deve sempre esperar tudo, o pior possível. tinha-to dito tanta vez, antes disso, com os olhos; disse-o, tenho a certeza, e só não ouviste porque não quiseste escutar. Talvez precisasses que as minhas palavras confirmassem aquilo que os meus olhos diziam. Foi isso ? E, nesse cao, de quem foi a culpa por termos feito tanto caminho? Tua, por não teres acreditado no que te dizia sem palavras, ou minha, por te não ter confirmado mais cedo as suspeitas? Dos dois ? É possível.

Manuel Jorge Marmelo, O Amor É Para Os Parvos